NÃO FALTOU SÓ ESPINAFRE

A crise não trouxe apenas danos sociais e econômicos. Mostrou também danos morais.

Aconteceu num mercadinho de bairro em São Paulo. A dona, diligente, havia conseguido algumas verduras e avisou à clientela. Formaram-se uma pequena fila e uma grande discussão. Uma senhora havia arrematado todos os dez maços de espinafre. No caixa, outras freguesas perguntaram se ela tinha restaurante. Não tinha. Observaram que a verdura acabaria estragada. Ela explicou que ia cozinhar e congelar. Então, foram ao ponto: caramba, havia outras pessoas na fila, ela não poderia levar só o que consumiria de imediato?

“Não, estou pagando e cheguei primeiro”, foi a resposta.

Compras exageradas nos supermercados, estoques domésticos, filas nervosas nos postos de combustível – teve muito comportamento na base de cada um por si.

Cabem nessa categoria as greves e manifestações oportunistas. Governo, cedendo, também vou buscar o meu – tal foi o comportamento de muita gente.

                                                 Carlos A. Sardenberg, in O Globo, 31/05/2018. 

 

“A dona, diligente, havia conseguido algumas verduras e avisou à clientela.”

01. Dentre as formas de reescrever um segmento desse trecho, assinale a que está gramaticalmente incorreta.

a) Avisou à clientela de que havia conseguido verduras.

b) Avisou à clientela que havia conseguido verduras.

c) Avisou a clientela de que havia conseguido verduras.

d) Avisou à clientela ter conseguido verduras.

e) Avisou a clientela de ter conseguido verduras.

 

02. Uma frase de Francis Bacon aparece em língua portuguesa da seguinte forma: “Só se pode vencer a natureza obedecendo-a” (Duailibi das Citações, p. 319)

A frase mostra alguns problemas de norma culta que, consertados, fariam a mesma frase ficar, de forma mais adequada, do seguinte modo:

a) Só se pode vencer a natureza obedecendo-lhe;

b) Só se pode vencer a natureza, obedecendo-a;

c) Só se pode vencer a natureza, obedecendo-lhe;

d) Só pode vencer-se a natureza, obedecendo-a;

e) Só se pode vencer a natureza, obedecendo a ela.

 

03. Assinale a opção em que o segmento verbal da charge não apresenta problemas de norma-padrão.

a) Ai Jesus. 

b) Me ajuda.

c) Ah Sinhô. 

d) há meses.

e) manda logo ela. 

 

04. Assinale a opção que indica as palavras da charge que mostram variação popular de pronúncia.

a) Ai – Sinhô.

b) Sinhô – ah.

c) Sinhô – tô. 

d) tô – manda.

e) manda – ela.

05. Assinale a opção em que a frase do texto mostra um exemplo de voz passiva verbal.

a) “O casamento foi a maneira que a humanidade encontrou de propagar a espécie sem causar falatório na vizinhança."

b) “As tradições matrimoniais se transformaram através dos tempos e variam de cultura para cultura.”

c) “O macho escolhia uma fêmea, batia com um tacape na sua cabeça e a arrastava para a sua caverna."

d) “Em certas sociedades primitivas o tempo gasto nas preliminares do casamento – corte, namoro, noivado etc. – era abreviado.”

e) “...quando ela estivesse distraída, bater com o tacape na sua cabeça e arrastá-la para a caverna.”

06. “O macho escolhia uma fêmea, batia com um tacape na sua cabeça e a arrastava para a sua caverna.” 
Assinale a opção que apresenta o problema de construção dessa frase do texto.

a) A polissemia do vocábulo “fêmea”.

b) A ambiguidade do possessivo “sua” em “sua caverna”.

c) A colocação do pronome pessoal “a”.

d) A seleção vocabular por “macho” em lugar de “homem”.

e) A predicação verbal do verbo “arrastava”.

07. “O macho escolhia uma fêmea, batia com um tacape na sua cabeça e a arrastava para a sua caverna.” “... mordiscar a sua orelha e só então, quando ela estivesse distraída, bater com o tacape na sua cabeça e arrastá-la para a caverna.” 
Nesses dois segmentos do texto vemos duas formas diferentes do mesmo pronome pessoal; assinale a opção em que a forma do pronome pessoal empregada está incorreta.

a) Os homens faziam-na entrar na caverna.

b) Fá-la-iam entrar na caverna à força.

c) Fazia-a aceitar o casamento na base da violência.

d) Espero que a faças aceitar-te como marido.

e) Faça-la cumprir o prometido antes do casamento.

Do Casamento

O casamento foi a maneira que a humanidade encontrou de propagar a espécie sem causar falatório na vizinhança. As tradições matrimoniais se transformaram através dos tempos e variam de cultura para cultura. Em certas sociedades primitivas o tempo gasto nas preliminares do casamento – corte, namoro, noivado etc. – era abreviado. O macho escolhia uma fêmea, batia com um tacape na sua cabeça e a arrastava para a sua caverna. Com o passar do tempo este método foi sendo abandonado, por pressão dos buffets, das lojas de presente e das mulheres, que não admitiam um período pré-conjugal tão curto. O homem precisava aproximar-se dela, cheirar seus cabelos, grunhir no seu ouvido, mordiscar a sua orelha e só então, quando ela estivesse distraída, bater com o tacape na sua cabeça e arrastá-la para a caverna. (fragmento)

VERÍSSIMO, Luís Fernando, Comédias da Vida Privada. Ed. LPm. 1994.

08. “O macho escolhia uma fêmea, batia com um tacape na sua cabeça e a arrastava para a sua caverna”. 
Esse período tem a função textual de:

a) esclarecer de que modo o tempo pré-conjugal era abreviado.

b) indicar o primitivismo dominante nas relações matrimoniais.

c) criticar a forma do matrimônio na pré-história.

d) mostrar como o rito matrimonial se modificou.

e) referir-se às preliminares matrimoniais anteriores.

 

09. “Em certas sociedades primitivas o tempo gasto nas preliminares do casamento – corte, namoro, noivado etc. – era abreviado.” 
O segmento sublinhado entre travessões indica:

a) uma retificação de um erro anterior.

b) uma explicação de um termo obscuro.

c) uma exemplificação de tradições sociais.

d) uma citação de todas as preliminares referidas.

e) uma enumeração de todas as preliminares citadas.

 

10. Na palavra “falatório”, o sufixo -ório tem o mesmo valor semântico no seguinte vocábulo:

a) auditório

b) promontório

c) laboratório

d) relatório

e) palavrório

 

11. O livro de onde foi retirado este fragmento recebeu o nome de Comédias da Vida Privada. O humor deste fragmento é conseguido basicamente pelo seguinte processo:

a) exagerar os dados fornecidos.

b) misturar momentos distantes do tempo.

c) criticar as preocupações sociais.

d) utilizar um vocabulário ultrapassado.

e) descrever ações de forma grotesca.