2014

Texto I

Aí pelas três da tarde

(Raduan Nassar)

Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom-senso do mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo “ciao” ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pelo, mas sem ferir o pudor (o seu pudor bem entendido), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome depois com uma nudez no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado), e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.

 

1) Ao analisar a estrutura do texto, percebe-se que se trata de um grande “bloco”, formado por um único parágrafo. Assinale a opção que melhor estabelece uma relação entre a forma do texto e o conteúdo abordado.

a) A forma do texto sugere a sensação de liberdade apresentada pelo autor.

b) A forma do texto simboliza o sentimento de opressão vivenciado pelos escreventes.

c) A forma do texto inviabiliza o ideal de liberdade proposto no texto.

d) A forma livre do texto invalida a percepção de que os escreventes estão oprimidos.

 

2) É possível perceber que há, no texto, várias referências a um interlocutor ou receptor. Desse modo, indique a opção que não evidencia essa característica.

a) “largue tudo de repente sob os olhares à sua volta,”

b) “faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos”

c) “os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários”

d) “Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto”

 

3) Considerando a tipologia que caracteriza o texto em análise, é correto afirmar que se trata da:

a) argumentativa

b) narrativa

c) descritiva

d) expositiva

4) Considerando o contexto e o fragmento “os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida.”, conclui-se o seguinte motivo pelo qual a condução da limpeza não fora conhecida pelo interlocutor:

a) falta de interesse do interlocutor.

b) incapacidade das empregadas.

c) desconhecimento das tarefas diárias.

d) falta de tempo em função do trabalho.

5) O autor baseia seu texto na representação de várias imagens simbólicas. Por exemplo, no trecho “dê um largo “ciao” ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida.”, há um fragmento destacado que combina duas figuras de linguagem. São elas:

a) comparação e eufemismo

b) metáfora e ironia

c) metonímia e personificação

d) hipérbole e paradoxo

6) O texto começa com a expressão “Nesta sala”. Sobre o emprego do pronome demonstrativo “esta” que se encontra contraído em tal expressão, é correto afirmar que:

a) indica que uma ideia citada anteriormente está sendo retomada.

b) revela proximidade entre o enunciador e o espaço narrado.

c) indica que o leitor encontra-se no espaço narrado.

d) revela distanciamento entre o enunciador e o espaço narrado.

7) No fragmento “onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom-senso do mundo”, o pronome “onde” poderia ser substituído, mantendo-se o sentido original do texto, pela seguinte estrutura:

a) para a qual

b) a qual

c) na qual

d) sobre a qual

8) Observe a ocorrência de crase em “largue tudo de repente sob os olhares à sua volta”, seu emprego é mais bem justificado:

a) pela presença do pronome possessivo

b) por tratar-se de uma expressão conjuntiva.

c) por acompanhar termo no singular.

d) por tratar-se de uma locução adverbial.

9) Em “cerre as abas da rede sobre os olhos”, pode ser entendido como um sinônimo para o termo em destaque a seguinte palavra:

a) feche

b) cole

c) corte

d) afaste

Considere o fragmento: “Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto libertando aí os pés das meias e dos sapatos” para responder às questões 10 e 11.

10) O conectivo “Mas” introduz a seguinte ideia em relação ao que foi dito anteriormente:

a) ressalva

b) anulação

c) exemplificação

d) proporcionalidade

11) 0 advérbio “aí” tem seu sentido aprendido pelo contexto. Assim, pode-se concluir que ele se refere:

a) ao ato de subir.

b) a não exagerar.

c) ao quarto.

d) aos pés.

12) 0 texto pode ser entendido também como um convite ao leitor para mudar de realidade. Um elemento gramatical que contribui para esse efeito é:

a) a grande quantidade de vocativos.

b) a escassez de adjetivos no texto.

c) o uso da Norma Culta da Língua.

d) o emprego recorrente do modo imperativo.

13) Em “Feito um banhista incerto”, percebe-se que se indica, corretamente, a classe gramatical de uma dessas palavras em:

a) “incerto” – advérbio

b) “um” - artigo indefinido

c) “um” – numeral

d) “banhista” - adjetivo

14) Os parênteses, geralmente, introduzem um comentário acessório no texto. Assim, em “(espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído),”, considerando o contexto, com o trecho em destaque; o autor pretende dizer que o interlocutor:

a) sente-se antiquado, obsoleto.

b) não é muito sociável.

c) não se sente ser humano.

d) fala pouco no trabalho.

 

15) Em “Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto”, além de um papel sintático a pontuação cumpre um efeito importante, pois:

a) impede duplas interpretações.

b) isola o aposto.

c) reforça a ideia de lentidão.

d) indica uma enumeração de termos de mesma função.

 

16) Acentuado pelo mesmo motivo que o vocábulo “invejáveis”, tem-se a palavra:

a) “comentários”

b) “Convém”

c) “excluído”

d) “mínimas”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

17) 0 humor da tira fica mais bem explicitado:

a) pela expressão facial do professor.

b) pela representação de uma aula tradicional

c) pelo emprego de letras maiúsculas.

d) pela dupla interpretação da pergunta feita.

 

18) Considerando o contexto em que o verbo “assistir” foi empregado, percebe-se que, considerando a Norma Padrão, seu uso evidencia um desvio de:

a) concordância

b) regência

c) ortografia

d) colocação pronominal

 

19) O vocábulo “mais”, presente na charge, permite inferir que o aluno:

a) nunca foi à aula.

b) sempre frequenta a aula.

c) deixou de frequentar a aula.

d) passou a frequentar a aula.

 

20) Considerando que “o aluno” é o sujeito da primeira oração escrita no quadro, assinale o comentário correto sintaticamente:

a) o vocábulo “não” é adjunto do sujeito “aluno”.

b) o predicado de tal oração é nominal.

c) “o aluno” é um sujeito passivo.

d) o predicado de tal oração é verbal.

 

2017

Diálogos

     Ele telefonou aflitíssimo.

     - Preciso marcar um horário, não é para mim, é para minha filha.

     - Que idade tem sua filha?

     - Quinze anos.

     - Ela quer vir?

     - Quer, quer...

     Chegam na consulta antes da hora. Agitado, ele fala muito, essa é minha filha, desejo que fale com ela, que a convença a não viajar.

     A garota, adolescente, mal-humorada, queixo projetado pra cima, boca cerrada com determinação.

     - Vamos entrar? Ana convida os dois.

     - Não, não, ela entra sozinha.

     A menina levanta-se e dirige-se para a sala de consulta.

     - O que trouxe vocês aqui?

     - Nada, não tenho o que falar, não tenho o que discutir, não queria vir, não preciso vir aqui. Já falei para o meu pai.

     - Mas já que veio, não poderia contar do que se trata?

     - Quero viajar, encontrar minha mãe que mora fora, quero ir morar com ela. Meus pais são separados, ele não quer me deixar, mas vou assim mesmo.

     - Você tentou falar com ele?

     - Não adianta, ele não quer ouvir, e por isso que minha mãe foi embora e eu não quero mais falar disso.

     (Estaria repetindo o gesto da mãe, indo embora sem conversa, sem explicação?)

     - Parece que o diálogo não é bem-vindo em sua casa.

     - Não, levanta-se para sair, não é isso.

     - Talvez quisesse que seu pai conversasse com você, em vez de lhe trazer para falar com uma psicóloga que não conhece nem pediu pra conhecer.

     Esse é o único momento em que Maria olha de fato para Ana.

     - É isso mesmo, diz e dirige-se à porta. Na sala de espera, Ana diz ao pai:

     - Sua filha quer que você fale com ela, quer ser ouvida por você, não por mim. Ela não tem o que falar para mim, mas tem muito a dizer a você.

     - Não, não, não sei falar com ela, não entendo o que ela diz, é igual à mãe, por isso a trouxe aqui, para que você fale com ela.

     - Vamos então falar juntos?

     - Não, não posso. Levantam-se e saem para nunca mais voltar.

(LOEB, Sylvia. Diálogos. In: ____. Contos do divã. Cotia: Ateliê Editorial, 2007. P. 73)

01. Assinale a alternativa correta. É possível perceber uma relação entre a estrutura e o tema do texto acima, sobretudo porque o texto é organizado por falas, o que:

a) combina com uma prática comum na casa da menina Maia.

b) indica a vontade de Maria de conversar com a psicóloga.

c) mostra o hábito de conversar, típico das famílias.

d) contrasta-se com a incapacidade dialógica do pai.

e) revela os diálogos realizados entre o marido e a ex-mulher.

02. Assinale a alternativa correta. Em “Chegam na consulta antes da hora.”, de acordo com a norma padrão, percebe-se um desvio de: 

a) concordância nominal.

b) regência.

c) acentuação.

d) concordância verbal.

e) ortografa.

03. Assinale a alternativa correta. Em relação ao texto, pode-se perceber que:

a) após inúmeras tentativas, o pai não conseguiu conversar com a filha.

b) o pai procurou uma psicóloga para reforçar o desejo da filha.

c) a psicóloga já conhecia a ex-mulher do homem que foi à consulta.

d) a filha procurou uma psicóloga, pois precisava muito conversar com alguém.

e) o pai não dialogava com a filha, semelhantemente, ao que fazia com sua ex.

04. Assinale a alternativa correta. Observe a ocorrência de crase em “é igual à mãe” e assinale a opção em que a substituição do substantivo “mãe” provocaria a impossibilidade da ocorrência desse fenômeno linguístico.

a) é igual à Ana.

b) é igual à sua mãe.

c) é igual à todas.

d) é igual à tia.

e) é igual à minha família.

05. Assinale a alternativa correta. A informação entre parênteses, presente no décimo oitavo parágrafo, revela:

a) a fala de revolta do pai.

b) o diagnóstico verbalizado pela psicóloga à menina. 

c) uma confssão da menina à psicóloga.

d) uma intervenção equivocada do narrador.

e) um comentário acessório sugerindo a reflexão do leitor.

06. Assinale a alternativa correta. No fragmento “Talvez quisesse que seu pai conversasse com você”, os verbos estão flexionados no mesmo tempo e modo indicando:

a) uma possibilidade em relação ao passado.

b) uma incerteza em relação a um futuro próximo.

c) uma sugestão para um interlocutor específico.

d) um hábito do passado que foi interrompido.

e) uma ação presente que se estende até o futuro.