Boa Vista — Há pouco mais de três anos, venezuelanos cruzam, diariamente, a fronteira de Pacaraima, divisa entre Roraima e a Venezuela, em busca de refúgio. São milhares. Com pouco dinheiro no bolso e, muitas vezes, deixando alguém querido para trás, querem recomeçar a vida no Brasil — e a cidade mais próxima é a capital de Roraima, Boa Vista, a 215 km da fronteira. De onde vêm, a diarreia voltou a ser uma doença perigosa, comida se tornou um privilégio e ter diploma de ensino superior passou a ser irrelevante. Chegam ao país e ocupam as ruas, dormem em praças, procuram por prédios inabitados. A cama é o papelão, o banho é na bica — e só se der. “Mas ainda assim nossa vida está melhor do que era lá. Tem comida”, dizem, como em um consenso. Buscam por empregos e alimentam a esperança de conseguirem reconquistar a dignidade que lhes foi tirada.

A onda migratória na região teve início em 2015, quando um grupo de venezuelanos indígenas pediu refúgio no país. Em 2016, o processo começou a ficar mais intenso, principalmente entre os não indígenas. Em 2017, a quantidade deles no país já havia praticamente quadruplicado, segundo os registros de entrada da Polícia Federal (PF). Entre 2017 e 2018, foram notificados 92.656 venezuelanos no país. Do total, 48.024 ainda permaneciam em território nacional. Os dados foram levantados com a ajuda do controle migratório na fronteira e a tendência, para a PF, é que o processo continue crescendo.

No país há quatro meses, Mariellis Soteldo, de 32 anos, deixou os três filhos e o marido na Venezuela e veio ao Brasil com apenas R$ 30 no bolso. Queria conhecer as possibilidades que teriam e juntar mais um dinheiro para voltar e buscar a família. Andou a pé por três dias desde Pacaraima, quando um brasileiro lhe ofereceu carona. Os pés estavam inchados, o estômago doía de fome. Assim que se instalou na praça, procurou por um bico e fez uma faxina em uma loja do comércio local. Recebeu menos de R$ 100 e decidiu voltar para buscar o caçula e o marido, que estavam doentes. “Pensei que meu filho morreria nos braços. Mas assim que pisamos em solo brasileiro, ele tomou dois soros emergenciais e começou a responder. Estava desacordado”, lembra, emocionada. Os outros dois filhos ficaram com a avó e chegaram ao Brasil em março deste ano.

O filho mais novo de Mariellis, Abrahan, de 4 anos, não fala. Tem atraso mental e cognitivo por ter nascido prematuro. Ela o levou a uma consulta no Hospital da Criança de Boa Vista, mas não conseguiu dar continuidade aos exames na busca pelo diagnóstico. Recentemente, foi deslocada pelo governo a Manaus, em um programa de interiorização para refugiados no país. Lá, espera conseguir emprego e tratamento para o caçula. Vive o sonho de poder dar, novamente, dignidade aos filhos: “Tento, todos os dias, ser forte por eles. Quero que consigamos um emprego, que os meninos voltem a estudar e que tenhamos novamente uma casa. Depois disso, conseguimos viver com o básico, o mínimo. O restante do que sobrar, se sobrar, quero ajudar a minha família que ainda está lá (na Venezuela)”.

A acolhida dos refugiados no estado travou uma briga entre os governos estadual, municipal e federal. Ao passo que os líderes locais pedem pelo fechamento da fronteira, o presidente Michel Temer afirma que o país não vai virar as costas para os vizinhos. A fim de tentar amenizar a situação para os moradores da cidade que tinha apenas 330 mil habitantes, o governo federal passou a intensificar ações e fornecer recursos, como reforço ao estado. Recentemente, no último 12 de março, a Medida Provisória 820, que dispõe sobre regras emergenciais de acolhimento, foi editada e um crédito extraordinário de R$ 190 milhões foi aberto ao Ministério da Defesa — responsável pela coordenação operacional das ações em Roraima. O general Eduardo Pazuello é quem chefia esse grupo, composto por 16 órgãos federais e agências da Organização das Nações Unidas (ONU).

 

Acolhimento 

Atualmente, há seis abrigos em Boa Vista, cada um com média de 500 vagas, e um em Pacaraima. Cerca de 3,5 mil venezuelanos estão acolhidos. No entanto, há quase 7 mil deles na cidade — 1,3 mil em situação de rua, desassistidos pelo governo e vulneráveis. O Correio esteve no abrigo Jardim Floresta, que recebe famílias e pessoas em situação de vulnerabilidade. O local é amplo, com militares na entrada fazendo a segurança. No portão, é possível ver mais de 20 venezuelanos em fila, na tentativa de sair da rua e conseguir uma vaga no centro.

Assim que os novos moradores entram no local, devem participar de um serviço de triagem com identificação, vacinas e, se necessário, atendimento médico básico. Depois são direcionados à barraca em que ficarão hospedados — todas as acomodações são doadas pela ONU. Cada pessoa recebe um kit individual de higiene, entregue pelos agentes da organização, com um sabonete, um creme dental, uma escova de dente, um shampoo, uma toalha, um cobertor e um kit de prato, copo e colher. Aos maiores de 12 anos são dados, também, um desodorante e um aparador de barba. As famílias, por sua vez, recebem papel higiênico, sabão em pó, vassoura, esponja de aço, detergente, esponja, desinfetante, água sanitária e saco de lixo. A ideia é que cada uma organize e limpe a área onde fica.

No país desde agosto do ano passado, Scarlen Villalba, 45 anos, completou um mês no abrigo. Ela, o marido, os dois filhos, a nora, que está grávida, e o neto dividem uma cabana. “É ótima essa casa, cada um tem um colchão e pode dormir com conforto. Ganhamos o kit de higiene, podemos lavar nossas roupas e ainda temos um ventilador para os dias de mais calor”, comemora. Ficaram no país os outros dois filhos de Scarlen, que trabalhava como cozinheira e faxineira na Venezuela. “Não quero sair de Boa Vista enquanto não conseguir buscar meus meninos. Mas, para isso, preciso conseguir um emprego, e sinto que os brasileiros não estão abertos para isso”, desabafa.

Insalubre

Em outro abrigo, no Tancredo Neves, Lusbraska Hernandez, de 33 anos, morou na rua por três meses e havia chegado ao centro de acolhimento há três dias. Ela, o marido deficiente e os dois filhos caminharam desde a fronteira até o centro de Boa Vista. A venezuelana, que trabalhava de costureira, veio ao Brasil para dar uma vida digna à família e, principalmente, à mãe, que tem câncer terminal e não consegue tratamento no país onde vive. “Já juntei R$ 100, que para os brasileiros parece pouco, mas para nós não é. Mandei esse dinheiro para ajudar na quimioterapia. Sonho que tudo vai dar certo e vivo o pesadelo de perdê-la e não poder ir a seu enterro.”

A médica da Marinha Marília Negreiros, que atende há poucas semanas nos abrigos da região, relata que entre as doenças mais comuns entre os refugiados estão as infecciosas, as parasitoses, as escabioses e as de pele. “Eles chegam em condições insalubres de vida, carentes de tudo. São acolhidos e damos esse suporte de saúde. Em menos de uma semana, já presenciei a suspeita de ao menos três casos de malária.”

O governo federal enviou a Boa Vista o reforço de 12 equipes do programa Mais Médicos, além de ter firmado  um convênio com o Corpo de Bombeiros, no valor de R$ 4,5 milhões, para mapeamento da situação de saúde. Foram doados 73 equipamentos e mobiliários para estruturar dois leitos de estabilização no hospital, no valor de R$ 324 mil, e empenhados R$ 563,3 mil para o Fundo Estadual de Saúde.