Conotação e Denotação

- Sentido conotativo é a linguagem em que a palavra é utilizada em sentido figurado, subjetivo ou expressivo. Ele depende do contexto em que é empregado, sendo muito utilizado na literatura. Isso porque, no meio literário, muitas palavras têm forte carga de sensações e sentimentos.

- Sentido denotativo é a linguagem em que a palavra é utilizada em seu sentido próprio, literal, original, real, objetivo.

 

Aquele homem é um cachorro. (linguagem conotativa, sentido figurado)

O cachorro da vizinha fugiu essa manhã. (linguagem denotativa, sentido próprio)

 

Nesse exemplo, podemos notar que a palavra cachorro é utilizada em dois sentidos diferentes: conotativo e denotativo.

 

Na primeira frase o termo refere-se ao caráter do homem "cachorro", numa linguagem conotativa que indica que o homem é mulherengo ou infiel.

Na segunda frase o termo está empregado de forma denotativa, ou seja, no sentido real e original da palavra cachorro: animal doméstico.

 

O sentido denotativo é muito vezes caracterizado como o sentido do dicionário, ou seja, a primeira acepção da palavra.

 

01. METÁFORA:

A metáfora é a figura de linguagem em que se encontra uma comparação implícita. Muito utilizada em textos poéticos, ela pode tornar o discurso mais elegante.

 

Exemplos:

‘O personagem do livro tem coração de pedra.’

Em vez de dizer que o personagem do livro é insensível, podemos comparar o seu coração a uma pedra para expressar o quanto ele é duro. Essa comparação implícita dá mais ênfase e beleza à frase.

Gabriel é um gato. (subentende-se beleza felina)

Lucas é um touro. (subentende-se a força do touro)

Fernando é um anjo. (subentende-se a bondade dos anjos)

Dona Filomena é uma flor. (subentende-se a beleza das flores)

Ludmila é fera em matemática. (subentende-se a esperteza)

Seus olhos são duas jabuticabas. (subentende-se as características da jabuticaba: pretas e redondas)

 

02. COMPARAÇÃO:

Ela é determinada por meio da relação de similaridade, ou seja, pela comparação de dois termos ou ideias num enunciado.

Geralmente, é acompanhada de elementos comparativos (conectivos): com, como, tal qual, tal como, assim, tão, quanto, parece, etc.

Exemplos de comparação

“É que teu riso penetra n'alma/Como a harmonia de uma orquestra santa.” (Castro Alves)

“Meu amor me ensinou a ser simples como um largo de igreja.” (Oswald de Andrade)

“Meu coração tombou na vida/tal qual uma estrela ferida/pela flecha de um caçador”. (Cecília Meireles)

“Eu faço versos como quem chora/De desalento... de desencanto...” (Manuel Bandeira)

“A vida vem em ondas, / como um mar/Num indo e vindo/infinito.” (Música “Como uma onda” de Lulu Santos)

“Avião parece passarinho/Que não sabe bater asa/Passarinho voando longe/Parece borboleta que fugiu de casa.” (Música “Sonho de uma flauta” de Teatro Mágico)

 

Muita gente confunde a metáfora com outra figura de linguagem: a comparação.

Veja a diferença:

Catarina é uma flor (metáfora).

Catarina é como uma flor (comparação).

Repare que a metáfora não apresenta o elemento de conexão característico da comparação. Ela utiliza os termos no sentido denotativo e os transforma no modo figurado (conotativo). É assim que é feita uma comparação implícita.

Quando o conectivo de comparação (como, tal qual, tal como, assim, etc.) aparece no enunciado, trata-se de um exemplo de comparação explícita.

Em outras palavras, a metáfora é uma comparação que não utiliza o conectivo, ou seja, ele está subtendido na frase.

 

03. CATACRESE:

A catacrese é uma figura de linguagem que representa um tipo de metáfora de uso comum que, com o passar do tempo, foi desgastada e se cristalizou.

Isso porque ao utilizarmos tanto determinada palavra, não notamos mais o sentido figurado expresso nela. Por exemplo: O pé da cadeira está quebrado.

O exemplo acima nos leva a pensar no sentido denotativo e conotativo das palavras. Ou seja, a cadeira não possui um “pé”, que no sentido denotativo é uma extremidade do membro inferior encontrada nos animais terrestres.

Lembre-se de que o sentido denotativo é aquele encontrado nos dicionários, o qual representa o conceito “real” da palavra. No exemplo acima, o pé da cadeira está no sentido conotativo (ou figurado) da palavra.

Sendo assim, a catacrese é um tipo especial de metáfora que já foi incorporada por todos os falantes da língua.

Mas, por ser uma expressão muito utilizada e, portanto, desgastada, estereotipada, viciada e pouco original, ela é considerada uma catacrese.

Nesse sentido, utilizamos essa figura de linguagem por meio da aproximação ou semelhança da forma de tal objeto.

Assim, a catacrese faz uma comparação e usa um determinado termo por não ter outro que designe algo específico. De tal modo, a palavra perde seu sentido original.

Exemplos:

Árvore genealógica

Fio de óleo

Céu da boca

Boca do túnel

Boca da garrafa

Pele do tomate

Braço do sofá

Braço da cadeira

Braço de rio

Corpo do texto

Pé da página

Pé da cama

Pé da montanha

Pé de limão

Perna da mesa

Maçã do rosto

Coroa do abacaxi

Asa da xícara

Asa do avião

Dentes do serrote

Dentes de alho

Cabeça do alho

Cabeça do prego

Cabeça do alfinete

Batata da perna

 

04. EUFEMISMO:

É um recurso estilístico muito utilizado na linguagem coloquial bem como nos textos literários com o intuito de atenuar ou suavizar o sentido das palavras, substituindo assim, os termos contidos no discurso, embora o sentido essencial permanece, por exemplo: Ele deixou esse mundo. (nesse caso, a expressão “deixou esse mundo”, ameniza o discurso real: ele morreu.)

Dessa forma, esse recurso é utilizado muitas vezes pelo emissor do discurso, para que o receptor não se ofenda com a mensagem triste ou desagradável que será enunciada. No entanto, há expressões em que notamos a presença do eufemismo, com um tom irônico, por exemplo: Ela vestiu o paletó de madeira, frase indicando a morte da pessoa, de forma que a expressão “paletó de madeira” faz referência ao objeto “caixão, ataúde, urna funerária”.

Note que o eufemismo se opõe a figura de pensamento denominada hipérbole, visto que ela é baseada no exagero intencional do enunciador do discurso. Em outras palavras, enquanto o eufemismo suaviza as expressões, a principal função da hipérbole é intensificar ou aumentar o sentido das palavras.

Exemplos:

Ele saiu do acampamento, para fazer suas necessidades. (a expressão faz referência às necessidades humanas de urinar ou defecar)

Fabrício foi morar no reino de Deus. (o local indicado “reino de Deus”, faz referência ao plano espiritual, confirmando assim, a morte da pessoa)

Luara fechou os olhos para sempre. (a expressão indicada corrobora a morte da pessoa, posto que só fechamos os olhos para sempre, somente quando morremos)

Ficou fora do concurso de modelos, pois era desprovido de beleza. (a expressão é substituída para suavizar o termo “feia”)

Sabrina ficou “P” da vida com a notícia. (a letra “P” nesse caso, indica que a pessoa não quis mencionar o palavrão para atenuar a notícia, que faz referência à expressão “puta da vida”, ou seja, nervosa)

Mariana faltou com a verdade. (para não dizer que ela foi mentirosa, é empregado a expressão em destaque)

Os deficientes visuais participaram do evento. (a expressão utilizada substitui a palavra “cego”, que pode gerar certo incômodo no receptor da mensagem)

Pessoas com necessidades especiais devem entrar pela porta direita. (indica que as pessoas que apresentam algum tipo de deficiência, seja visual , auditiva, mental ou mecânica, devem utilizar outra porta)

A garota de programa foi contratada para animar a festa. (o termo suaviza a expressão “prostituta”)

Após o evento, João foi convidado a se retirar da escola. (ao invés de dizer que ele foi expulso, é comum utilizar o eufemismo nesse caso, para amenizar a expressão)

 

05. METONÍMIA

É um recurso linguístico-semântico que substitui outro termo segundo a relação de contiguidade e/ou afinidade estabelecida entre duas palavras, conceitos, ideias, por exemplo:

Aquele homem é um sem-teto (nesse caso, a expressão “sem-teto”, representa a substituição de um conceito referente às pessoas que não possuem casa.

 

Exemplos:

Parte pelo todo: Ele possuía inúmeras cabeças de gado. (bois)

Causa pelo efeito: Consegui comprar a televisão com meu suor. (trabalho)

Autor pela obra: Li muitas vezes Camões. (obra literária do autor)

Inventor pelo Invento: Meu pai me presenteou com um Ford. (inventor da marca Ford: Henri Ford)

Marca pelo produto: Meu pai adora tomar Nescau com leite. (chocolate em pó)

Matéria pelo objeto: Passou a vida atrás do vil metal. (dinheiro)

Singular pelo plural: O cidadão foi às ruas lutar pelos seus direitos. (vários cidadãos)

Concreto pelo abstrato: Natália, a melhor aluna da classe, tem ótima cabeça. (inteligência)

Continente pelo conteúdo: Quero um copo d’água. (copo com água)

Gênero pela espécie: Os homens cometeram barbaridades. (humanidade)

06. PERÍFRASE

Exemplos:

A cidade luz foi atingida por terroristas nessa tarde. (Paris)

A terra da garoa está cada vez mais perigosa. (São Paulo)

Sampa é o grande centro financeiro do país. (São Paulo)

O país do futebol conquistou mais uma medalha nas olimpíadas. (Brasil)

O país do carnaval celebrou mais uma conquista política. (Brasil)

A cidade maravilhosa foi palco das olimpíadas 2016. (Rio de Janeiro)

O Timão venceu mais um campeonato. (Corinthians)

Mais ouro negro foi descoberto no Brasil. (Petróleo)

O Velho Chico vem sofrendo com problemas ambientais. (Rio São Francisco)

O pulmão do mundo está sofrendo com o desmatamento desenfreado. (Amazônia)

 

07. ANTONOMÁSIA:

Exemplos:

O poeta dos escravos escreveu diversos poemas abolicionistas. (Castro Alves)

O rei do reggae recebeu em 1976 o prêmio de "Banda do Ano". (Bob Marley)

A dama do teatro brasileiro foi indicada ao Oscar de melhor atriz. (Fernanda Montenegro)

O divino mestre partilhou diversos ensinamentos. (Jesus)

O pai da aviação foi um grande inventor brasileiro. (Santos Dumont)

O poeta da vila é considerado um dos mais importantes músicos do Brasil. (Noel Rosa)

O show do Rei estava lotado. (Roberto Carlos)

O rei do pop faleceu em Los Angeles no ano de 2009. (Michael Jackson)

A rainha dos baixinhos nasceu na cidade de Santa Rosa, no Rio Grande do Sul. (Xuxa)

O rei do futebol é considerado um dos maiores futebolistas da história mundial. (Pelé)

 

08. SINESTESIA:

Ela está associada com a mistura de sensações relacionadas aos sentidos: tato, audição, olfato, paladar e visão.

Sendo assim, essa figura de linguagem estabelece uma relação entre planos sensoriais diferentes.

Exemplos:

“E um doce vento, que se erguera, punha nas folhas alagadas e lustrosas um frêmito alegre e doce.” (Eça De Queiros)

“Por uma única janela envidraçada, (…) entravam claridades cinzentas e surdas, sem sombras.” (Clarice Lispector)

“Insônia roxa. A luz a virgular-se em medo. / O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou / Gritam-me sons de cor e de perfumes.” (Mário de Sá-Carneiro)

 

09. HIPÉRBOLE:

Indica o exagero intencional do enunciador (expressa uma ideia exagerada ou intensificada de algo ou alguém).

"Estou morrendo de sede".

Note que o "contrário" da hipérbole é o eufemismo, posto que ele suaviza ou ameniza as expressões, enquanto a hipérbole as intensifica.

 

Exemplos:

1. Se eu souber que você errou o caminho, eu te mato.

2. Tentei falar com ela bilhões de vezes durante a semana.

3. Ele demorou um século para chegar aqui.

4. Ela estava morrendo de rir da piada dele.

5. Dona Maria lhe mandou um milhão de beijos.

 

10. LILOTE:

Ele é usado para abrandar uma expressão por meio da negação do contrário. Ele permite afirmar algo por meio da negação, por exemplo:

Eu não estou feliz com a notícia da prefeitura. Nesse exemplo, a expressão “não estou feliz” atenua a ideia de “ficar triste”.

Lembre-se de que essas palavras de significados opostos são chamadas de antônimos, por exemplo: bom e mau, feliz e triste, caro e barato, bonito e feio, rico e pobre, etc.

 

Exemplos:

Joana pode não ser das melhores alunas da classe. (é ruim, ou seja, não é boa)

Luíza não é das mais bonitas. (é feia, ou seja, não é bonita)

Essa camisa não é cara. (é barata, ou seja, não é cara)

Seus conselhos não são maus. (são bons, ou seja, não são maus)

Rafael não está certo sobre o crime. (está errado, ou seja, não está certo)

Essa bebida não está quente. (está fria, ou seja, não está quente)

Sofia não é nada boba. (é esperta, ou seja, não é boba)

Samuel não é pobre pois tem uma grande casa na praia. (é rico, ou seja, não é pobre)

Manuela não dançou bem na apresentação da escola. (dançou mal, ou seja, não dançou bem)

O supervisor Marcos não está limpo. (está sujo, ou seja, não está limpo)

 

11. IRONIA:

A ironia é a representação do contrário daquilo que se afirma.

Exemplo: É tão inteligente que não acerta nada.

Ele correu tão rápido quanto uma tartaruga.

A sopa estava uma delícia: fria e sem tempero.

Eu fico feliz quando ela não atende as minhas ligações.

Ele estudou tanto que tirou zero na prova.

Felicidade é trabalhar muito e receber pouco.

Ele teve uma grande ideia e arruinou a nossa viagem.

 

12. PERSONIFICAÇÃO:

Ela está diretamente relacionada com o significado (campo semântico) das palavras e corresponde ao efeito de “personificar”, ou seja, dar vida aos seres inanimados.

A personificação é utilizada para atribuir sensações, sentimentos, comportamentos, características e/ou qualidades essencialmente humanas (seres animados) aos objetos inanimados ou seres irracionais, por exemplo:

O dia acordou feliz.

Segundo o exemplo, a característica de “acordar feliz” é uma característica humana, que, nesse caso, está atribuída ao dia (substantivo inanimado).

Note que a personificação pode também atribuir qualidades de seres animados a outros seres animados, por exemplo:

A cachorro sorriu para o dono.

Exemplos de Personificação

Segue abaixo alguns exemplos em que a personificação é empregada:

1. O dia acordou feliz e o sol sorria para mim.

2. O vento assobiava esta manhã em que o céu chorava.

3. Naquela noite, a lua beijava o céu.

4. Após a erupção do vulcão, o fogo dançava por entre as casas.

Nos exemplos acima, nota-se a utilização da personificação, na medida em que características de seres animados (que possuem alma, vida) são atribuídas aos seres inanimados (sem vida).

 

13. ANTÍTESE:

Acontece por meio da aproximação de palavras com sentidos opostos.

Exemplos:

A relação deles era de amor e ódio.

O dia está frio e meu corpo está quente.

A vida e a morte: duas figuras de uma mesma moeda.

A tristeza e a felicidade fazem parte da vida.

Bonito para alguns, feio para outros.

Vivemos num paraíso ou num inferno?

Faça sol ou faça chuva, estarei no teatro.

O céu e a terra se fundem tal qual uma pintura.

A luz e a escuridão estavam presentes em sua obra.

Não sei dizer qual verdade reside na mentira.

 

14. PARADOXO:

Baseia-se na contradição.

Muitas vezes pode apresentar uma expressão absurda e aparentemente sem nexo, entretanto, expõem uma ideia fundamentada na verdade.

Para entender melhor o conceito de paradoxo, vejamos a seguir, o soneto do português Luís Vaz de Camões (1524-1580).

O escritor utiliza o paradoxo como principal figura de linguagem, ao unir ideais contraditórias que, por sua vez, apresentam uma coerência:

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

 

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

 

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

15. GRADAÇÃO:

É empregada por meio da enumeração de elementos frasais. Tem o intuito de enfatizar as ideias numa sentença de ritmo crescente, até atingir o clímax (grau máximo).

Ou seja, ela oferece maior expressividade ao texto utilizando uma sequência de palavras que intensificam uma ideia de maneira gradativa, e por isso recebe esse nome.

Classificação

Na gradação, essa hierarquia pode ocorrer na forma crescente ou decrescente. Quando ela ocorre de maneira crescente é chamada de clímax ou gradação ascendente.

Por sua vez, se ocorre de maneira decrescente é chamada de anticlímax ou gradação descendente. Para compreender melhor, confira abaixo os exemplos:

No restaurante, sentei, pedi, comi, paguei. (clímax)

Ana estava pelo mundo e chegou no país, no estado, na cidade, no bairro. (anticlímax)

 

16. APÓSTROFE:

É caracterizada pelas expressões que envolvem invocações, chamamentos e interpelações de um interlocutor (seres reais ou não).

Por esse motivo, a apóstrofe exerce a função sintática de vocativo, sendo, portanto, uma característica dos discursos diretos.

Exemplos:

- Ó Deus! Ó Céus! Porque não me ligou?

- Senhor, tende piedade de nós.

- Padre, posso me confessar?

- Povo de São Paulo! Vamos vencer juntos.

- Liberdade, Liberdade! É isso que pretendemos nessa luta.

- Nossa! Como você conseguiu?

- Minha Filha! Que linda você está!

 

17. ELIPSE:

Ela é utilizada para omitir termos numa sentença que não forem mencionados anteriormente. No entanto, esses termos são facilmente identificáveis pelo interlocutor.

Exemplo: Comi no restaurante da minha avó na semana passada.

No exemplo acima, sabemos que pela conjugação do verbo (primeira pessoa do singular), o termo omitido foi o pronome pessoal (eu). Esse caso é chamado de “elipse de sujeito”.

Além da omissão do sujeito, a elipse pode ocorrer com outros termos da frase: verbos, advérbios e conjunções.

 

18. ZEUGMA:

Ela é usada para omitir termos na oração com o intuito de evitar a repetição desnecessária de alguns termos, como o verbo ou o substantivo.

Sendo assim, ela torna a linguagem do texto mais fluida. Quando é utilizada, o uso da vírgula torna-se necessário.

Exemplos:

- “O colégio compareceu fardado; a diretoria, de casaca.” (Raul Pompeia)

- “A vida é um grande jogo e o destino, um parceiro temível.” (Érico Veríssimo)

 

19. HIPÉRBATO:

É caracterizado pela inversão brusca da ordem direta dos termos de uma oração ou período.

Na construção usual da língua, a ordem natural dos termos da oração vem posicionada dessa maneira: sujeito + predicado + complemento.

Sendo assim, o hipérbato interfere na estrutura gramatical, invertendo a ordem natural dos termos da frase. Por exemplo: Feliz ele estava. Na ordem direta a frase ficaria: Ele estava feliz.

Note que o uso do hipérbato pode comprometer muitas vezes o entendimento, ou mesmo gerar ambiguidade.

 

O hino nacional brasileiro é um exemplo notório em que o hipérbato foi utilizado muitas vezes. Analise abaixo os trechos:

“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante”

“E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos, /Brilhou no céu da Pátria nesse instante.”

Ordem direta do primeiro trecho: As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico.

Ordem direta do segundo trecho: O sol da Liberdade brilhou em raios fúlgidos no céu da Pátria nesse instante.

 

20. ANACOLUTO:

É caracterizado por alterar a sequência lógica da estrutura da frase por meio de uma pausa no discurso. Assim, o anacoluto realiza uma “interrupção” na estrutura sintática da frase.

Normalmente, o termo inicial fica “solto” na frase sem apresentar uma relação sintática com os outros termos.

Por exemplo: Meu vizinho, soube que ele está no hospital.

A expressão "meu vizinho" parece ser o sujeito da oração, mas quando terminamos a frase podemos constatar que ele não possui essa função sintática estabelecida.

Exemplos:

- Eu, acho que estou passando mal.

- Nora, lembro dela sempre que chego aqui.

- A vida, não sei como será sem ele.

- Crianças, como são difíceis de lidar.

- Lúcia, ouvi dizer que está viajando.

- Portugal, quantas lembranças tenho.

 

21. POLISSÍNDETO:

Ele é caracterizado pelo uso de síndetos, ou seja, de elementos conectivos (conjunções) nos períodos compostos. O polissíndeto forma as orações coordenadas sindéticas sendo que os elementos mais utilizados são: e, ou, nem.

Essa figura de sintaxe é muito utilizada como recurso estilístico, sobretudo nos textos poéticos e musicais.

Exemplos:

- “As ondas vão e vem/ E vão e são como o tempo.” (Música “Sereia” de Lulu Santos)

- “Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,/Porque o presente é todo o passado e todo o futuro.” (Ode Triunfal de Fernando Pessoa)

- “Do claustro, na paciência e no sossego,/Trabalha e teima, e lima, e sofre, e sua!” (“A um poeta” de Olavo Bilac)

 

22. ANÁFORA:

A anáfora ocorre por meio da repetição de termos no começo das frases (ou dos versos).

Exemplos:

"É o pau, é a pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba no campo, é o nó da madeira"

 

23. ASSÍNDETO:

É caracterizado pela ausência de síndeto.

O síndeto, nesse caso, é uma conjunção coordenativa utilizada para unir termos nas orações coordenadas.

Logo, o assíndeto corresponde a uma figura de sintaxe marcada pela omissão de conjunções (conectivos) nos períodos compostos.

Geralmente, no lugar dos conectivos são colocados vírgula ou ponto e vírgula, criando assim orações coordenadas assindéticas.

Exemplos:

- “Tem que ser selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado, se quiser voar. Pra lua, a taxa é alta. Pro sol: identidade.” (música “Carimbador Maluco” de Raul Seixas)

- “Por você eu largo tudo. Vou mendigar, roubar, matar./ Que por você eu largo tudo. Carreira, dinheiro, canudo.” (música “Exagerado” de Cazuza)

- “Era impossível saber onde se fixava o olho de padre Inácio, duro, de vidro, imóvel na órbita escura. Ninguém me viu. Fiquei num canto, roendo as unhas, olhando os pés do finado, compridos, chatos, amarelos.” (“Angústia” de Graciliano Ramos)

 

24. PLEONASMO:

O pleonasmo é uma figura ou um vício de linguagem que acrescenta uma informação desnecessária ao discurso, seja de maneira intencional ou não.

O pleonasmo é classificado de duas maneiras segundo a intenção do enunciador do discurso:

Pleonasmo Vicioso

Também chamado de redundância, o pleonasmo vicioso é utilizado como vício de linguagem.

Nesse caso, ele é um erro sintático não intencional que a pessoa comete por desconhecimento das normas gramaticais.

Trata-se de um desvio gramatical que passa despercebido pelos falantes da língua. Note que ele é muito utilizado no cotidiano e na linguagem coloquial.

Exemplos:

- subir para cima: o verbo “subir” já indica ir para cima, elevar-se.

- descer para baixo: o verbo “descer” já denota mover de cima para baixo, declinar.

- entrar para dentro: o verbo “entrar” já indica passar para dentro.

- sair para fora: o verbo “sair” é sempre passar de dentro para fora, afastar-se.

- encarar de frente: o verbo “encarar” significa olhar de frente, de cara. Ou seja, quando encaramos, já estamos posicionados de frente.

- ver com os olhos: o verbo “ver” (perceber pela vista) está intimamente relacionado com os olhos, uma vez que enxergamos com esse órgão

- hemorragia de sangue: a “hemorragia” é um termo que indica derramamento de sangue. Quando utilizamos essa palavra, não é necessário utilizar o vocábulo sangue.

- multidão de pessoas: a palavra “multidão” já determina um grande agrupamento de pessoas.

- surpresa inesperada: a palavra “surpresa” já indica algo inesperado.

- outra alternativa: a palavra “alternativa” denota outra escolha dentre duas ou mais opções.

 

Pleonasmo Literário

Já o pleonasmo literário (ou intencional) é usado com intenção poética de oferecer maior expressividade ao texto. Assim, nesse caso ele é considerado uma figura de linguagem.

Em outras palavras, o pleonasmo literário é utilizado intencionalmente como recurso estilístico e semântico para reforçar o discurso de seu enunciador. Observe que nesse viés, o escritor tem 'licença poética' para fazer essa ligação.

Exemplos:

- “E rir meu riso e derramar meu pranto” (Vinicius de Moraes)

- “E ali dançaram tanta dança” (Chico Buarque e Vinicius de Moraes)

- “Me sorri um sorriso pontual e me beija com a boca de hortelã” (Chico Buarque)

- “Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal” (Fernando Pessoa)

- “Morrerás morte vil na mão de um forte” (Gonçalves Dias)

- “Quando com os olhos eu quis ver de perto” (Alberto de Oliveira)

- “Chovia uma triste chuva de resignação” (Manuel Bandeira)

 

25. SILEPSE:

A silepse é empregada mediante a concordância da ideia e não do termo utilizado na frase. Dessa forma, ela não obedece às regras de concordância gramatical e sim por meio de uma concordância ideológica.

Classificação

Dependendo do campo gramatical que ela atua, a silepse é classificada em:

- Silepse de Gênero: quando há discordância entre os gêneros (feminino e masculino);

- Silepse de Número: quando há discordância entre o singular e o plural;

- Silepse de Pessoa: quando há discordância entre o sujeito, que aparece na terceira pessoa, e o verbo, que surge na primeira pessoa do plural.

Exemplos:

- Silepse de Gênero: A velha São Paulo cresce a cada dia.

- Silepse de Número: O povo se uniu e gritavam muito alto nas ruas.

- Silepse de Pessoa: Todos os pesquisadores estamos ansiosos com o congresso.

No primeiro exemplo, notamos a união dos gêneros masculino (São Paulo) e feminino (velha).

No segundo exemplo, o uso do singular e plural denota o uso da silepse de número: povo (singular) e gritavam (plural).

No terceiro exemplo, o verbo não concorda com o sujeito, e sim com a pessoa gramatical: pesquisadores (terceira pessoa); estamos (primeira pessoa do plural).

 

26. ALITERAÇÃO

É definida pela repetição de fonemas consonantais num enunciado. Isso significa que esses sons podem ser parecidos ou iguais e, geralmente, estão localizados no início ou no meio da palavra.

Exemplos:

- “Vozes veladas, veludosas vozes,/Volúpias dos violões, vozes veladas/Vagam nos velhos vórtices velozes/Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.” (Cruz e Souza) – repetição da consoante “v”.

- “Leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.” (Luís de Camões) – repetição da consoante “v”.

- “O rato roeu a roupa do rei de Roma.” (provérbio popular) – repetição da consoante “r”.

- “Quem com ferro fere com ferro será ferido.” (provérbio popular) – repetição da consoante “f”.

- “O sabiá não sabia que o sábio sabia que o sabiá não sabia assobiar.” (provérbio popular) – repetição da consoante “s”.

 

27. ASSONÂNCIA:

É caracterizada pela repetição harmônica de sons vocálicos (vogais) numa frase.

Exemplos:

“Juro que não acreditei, eu te estranhei / Me debrucei sobre teu corpo e duvidei/E me arrastei e te arranhei / E me agarrei nos teus cabelos” (Atrás da Porta – Chico Buarque) – repetição das vogais “ei”.

“Meu amor / O que você faria / Se só te restasse esse dia? / Se o mundo fosse acabar / Me diz o que você faria” (O que você faria – Lenine) – repetição das vogais “ia”.

 

28. PARONOMÁSIA:

Recebe esse nome pois ela utiliza as palavras parônimas como principais elementos estilísticos.

Lembre-se de que os parônimos são termos que se assemelham na grafia e na pronúncia, mas diferem no sentido, por exemplo:

- Comprimento (extensão) e cumprimento (saudação)

- Emigrar (deixar um país) e imigrar (entrar num país)

- Flagrante (evidente) e fragrante (perfumado)

- Inflação (alta dos preços) e infração (violação)

- Tráfego (trânsito) e tráfico (comércio ilegal)

 

29. Onomatopeia

Essa figura de som é muito utilizada para conferir maior expressividade aos textos. A Onomatopeia é marcada pela imitação dos sons reais de animais, objetos ou pessoas, por exemplo:

Miau! Reclamou de fome o gatinho na frente da casa.

O tic-tac do relógio pode ser um tormento.