Uma hora de relógio

 (Gregório Duvivier.)

 

     O tempo pro brasileiro é tão fluido que a gente inventou a expressão “hora no relógio” – na Bahia, diz-se “hora de relógio”. Nesse momento um suíço ou um inglês tem uma síncope. “Existe alguma hora que não seja de relógio?”

     Caro amigo, existe uma imensa variedade de horas. Na expressão “espera só meia horinha”, “meia horinha” costuma demorar duas horas de relógio, enquanto na frase “tô te esperando há horas”, “horas” pode significar só “meia horinha” de relógio. Por isso a importância da expressão “de relógio”: na hora do relógio, cada um dos minutos dura estranhos 60 segundos de relógio – não confundir, claro, com os segundinhos e os minutinhos, que podem durar horas de relógio. “O senhor tem cinco minutinhos?” “Tenho – mas no relógio só tenho uns dois”.

     Sim, o diminutivo muda tudo. Quando se marca “de manhãzinha”, é no início da manhã, de oito às dez, mas se por acaso marcarem “de tardinha”, estarão se referindo ao fim da tarde, de cinco às sete. Nada é tão simples: de noitinha volta a ser no início da noite, tornando tardinha e noitinha conceitos intercambiáveis. Que cara é essa, amigo saxão? Você mede comprimento com pés e polegadas.

Não pense que para por aí: tem surgido, cada vez mais frequente, o diminutivo do gerúndio. Ouvi de uma amiga: “outro dia te vi todo correndinho na Lagoa”. Nada mais ridículo do que achar que se estava correndo e descobrir que só se estava correndinho. Esse é o meu problema com esportes: só chego nos diminutivos. Não chego a me exercitar, só fico me exercitandinho. Antes disso, fico alongandinho. E depois reclamandinho. Diz-se de um casal que começa a namorar que ambos estão namorandinho – no entanto, não se diz que um homem que começa a morrer já está morrendinho.

     O diminutivo costuma recair sobre coisas pelas quais a gente tem ao menos um pouco de carinho. Por isso pode-se dizer criancinha, velhinho, mas jamais “adolescentezinho”. Pode-se dizer gatinho, cachorrinho, mas jamais “atendentinho de telemarketing”. A não ser, claro, no seu uso irônico: se te chamarem de “queridinho”, querem é que você exploda.

Foi o Ricardo Araújo Pereira quem atentou para o fato de que pomos o diminutivo em advérbios. “É devagar, é devagar, devagarinho”, diz o poeta Martinho – que carrega o diminutivo no nome. Deve ser coisa nossa, pensei, orgulhoso, até ouvir “despacito”, o “devagarinho” deles. Estranhamente, o vocalista fala mil palavras por minuto – de relógio. Prefiro o Martinho.

(Disponível em:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2017/07/1899750-na-hora-do-relogio-cada-minuto-dura-estranhos- 60-segundos-de-relogio.shtml.)

 

01. Considerando as informações e o modo como tais informações são levadas ao texto, pode-se afirmar que o tema central do texto é: 

a) a imprecisão linguística do brasileiro.

b) a dicotomia tempo cronológico/tempo psicológico.

c) o contraste entre certas culturas europeias e a brasileira.

d) o inadequado uso de um recurso morfológico do português pelos brasileiros. 

 

02. Analise as afirmações apresentadas a seguir.

I. Em “Existe alguma hora que não seja de relógio?”, a oração sublinhada é uma oração subordinada adjetiva explicativa.

II. Em “[...] tem surgido, cada vez mais frequente, o diminutivo do gerúndio.”, a expressão destacada atua como sujeito da locução verbal “ter surgido”.

III. “Não pense que para por aí [...]”, a oração sublinhada é uma oração subordinada substantiva objetiva direta.

IV. Em “[...] se te chamarem de ‘queridinho’, querem é que você exploda.”, a oração destacada é uma oração subordinada adverbial causal.

 

Estão corretas apenas as afirmativas

a) I e II.

b) II e III.

c) III e IV.

d) I, II e IV.

03. Observe a tirinha:

A palavra “epifania”, do grego “epipháneia” (aparição, manifestação), refere-se, na nossa cultura, à comemoração da primeira manifestação de Cristo aos gentios, na visita dos Reis Magos. Na tira, no entanto, o tigre Haroldo a utiliza com um sentido diverso. Qual dos termos a seguir se constitui como sinônimo desse termo considerando o contexto da tira?

a) Advento

b) Adoração.

c) Descoberta.

d) Aparecimento.

 

04. Observe a tirinha:

O humor na tira de Chris Browne ampara-se numa expressão de natureza figurativa; ser pau para toda obra. Que figura de linguagem está presente nessa expressão?

a) Metáfora.

b) Metonímia.

c) Eufemismo.

d) Prosopopeia.

O estado diante da causa individual

     Faço a mim mesmo uma antiquíssima pergunta. Como proceder quando o Estado exige de mim um ato inadmissível e quando a sociedade espera que eu assuma atitudes que minha consciência rejeita? É clara minha resposta. Sou totalmente dependente da sociedade em que vivo. Portanto terei de submeter-me a suas prescrições. E nunca sou responsável por atos que executo sob uma imposição irreprimível. Bela resposta! Observo que este pensamento desmente com violência o sentimento inato de justiça. Evidentemente, o constrangimento pode atenuar em parte a responsabilidade. Mas não a suprime nunca. E por ocasião do processo de Nuremberg, esta moral era sentida sem precisar de provas. Ora, nossas instituições, nossas leis, costumes, todos os nossos valores se baseiam em sentimentos inatos de justiça. Existem e se manifestam em todos os homens. Mas as organizações humanas, caso não se apoiem e se equilibrem sobre a responsabilidade das comunidades, são impotentes. Devo despertar e sustentar este sentimento de responsabilidade moral; é um dever em face da sociedade. Hoje os cientistas e os técnicos estão investidos de uma responsabilidade moral particularmente pesada, porque o progresso das armas de extermínio maciço está entregue à sua competência. Por isto julgo indispensável a criação de uma “sociedade para a responsabilidade social na Ciência”. Esclareceria os problemas por discuti-los e o homem aprenderia a forjar para si um juízo independente sobre as opções que se lhe apresentarem. Ofereceria também um auxílio àqueles que têm uma necessidade imperiosa do mesmo. Porque os cientistas, uma vez que seguem a via de sua consciência, estão arriscados a conhecer cruéis momentos.

(In: EINSTEIN, A. Como vejo o mundo. Trad. H. P. de Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. p. 20-21.)

 

05. É correto afirmar, considerando as informações levadas ao texto e a forma como estão articuladas, que o seu autor acredita que

a) os indivíduos não são responsáveis sobre aquilo que fazem sob imposição.

b) a responsabilidade moral do indivíduo é um compromisso seu consigo mesmo.

c) o indivíduo tem responsabilidade sobre suas atitudes independente de qualquer coisa.

d) uma vez dependente da sociedade, o indivíduo deve se submeter à vontade do estado.

06. No trecho “[...] o progresso das armas de extermínio maciço está entregue à sua competência”, o uso do acento grave como indicador de crase é opcional. Assinale a alternativa em que o uso desse mesmo recurso também é opcional.

a) “Eles assistiram àquela peça várias vezes.”

b) “Os homens chegaram cedo à casa da avó.”

c) “Suas prerrogativas estão relacionadas às dele.”

d) “Caminharam até à casa dos amigos para brincar.”

NOVO BLOCO

 

     Proteção, sim; violação de privacidade, não. Esse é o desejo dos consumidores brasileiros que navegam na Internet. E esse é o mote – mais que o mote, o alerta – que orienta a campanha lançada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) na última terça-feira, contra o Projeto de Lei 84/99, que trata de crimes cibernéticos.

     A campanha “Consumidores contra o PL Azeredo” pretende chamar a atenção da sociedade para a ameaça que o PL 84 representa ao direito à privacidade e liberdade na rede, aos direitos dos consumidores no acesso aos produtos e serviços e no direito fundamental de acesso à cultura, à informação e à comunicação.

     No Congresso desde 1999, o PL 84/99 segue na Câmara dos Deputados nos termos do texto substitutivo proposto pelo deputado Eduardo Azeredo (PSDB-MG). O PL Azeredo tramita em caráter de urgência na Casa e está prestes a ser votado no início de agosto, quando termina o recesso parlamentar. Se aprovado, desviando-se de sua pretensa função de combater os crimes na Internet, o projeto vai instaurar um cenário de vigilância e monitoramento na rede, restringindo sensivelmente os direitos e liberdades e criminalizando condutas que são cotidianas dos cidadãos no mundo virtual.

     Para os consumidores, a aprovação do projeto traz consequências drásticas, especialmente se considerarmos que a Internet é inteiramente permeada por relações de consumo. Desde a conexão até o acesso a conteúdos em sites, produtos e serviços via comércio eletrônico, passando pela utilização de e-mails, plataformas colaborativas e redes sociais, em menor ou maior grau, tudo é relação de consumo e deve ser entendido na lógica da defesa dos direitos consagrados pelo Código de Defesa do Consumidor (CDC).

     Há 20 anos, esse mesmo CDC tenta fazer valer um de seus princípios básicos: a boa-fé. Pressupõe-se que todos são legítimos titulares de direitos e praticam seus atos cotidianos com base na legalidade, na confiança e no respeito. Por óbvio, essa premissa é válida também para a Internet. O que o PL Azeredo faz, no entanto, é inverter essa lógica. No lugar da presunção da boa-fé, instaura-se a constante suspeita. No lugar do respeito à privacidade dos dados e informações dos usuários, o projeto determina a sua vigilância constante, como se a qualquer momento fossem praticar um crime, um ato de vandalismo, uma atitude ilícita. Para o PL Azeredo, como norma penal que é, na Internet todos passam a ser suspeitos até que se prove o contrário. (Guilherme Varella, Carta Capital. 28/07/11)

 

01. De acordo com o texto, o Projeto de Lei 84/99:

a) determina o acesso irrestrito a produtos e serviços virtuais.

b) atende ao clamor público de que seja instituída uma proteção virtual.

c) é incentivado pela campanha: Proteção, sim; violação à privacidade, não.

d) impõe limites no mundo virtual desconsiderando o respeito à privacidade.

e) está de acordo com a lógica de defesa dos direitos consagrados pelo CDC.

02. Na frase “Proteção, sim; violação de privacidade, não”, há uma indicação de:

a) ideia de concessão.

b) motivo e finalidade.

c) oposição de ideias.

d) causa e consequência.

e) ideias que se completam.

03. Assinale o elemento de coesão textual destacado que tem o seu referente corretamente identificado.

a) “Esse é o desejo dos consumidores...” – Proteção, sim; violação de privacidade, não

b) “E esse é o mote...” – Internet

c) “Por óbvio, essa premissa é válida...” – defesa dos direitos

d) “... e praticam seus atos cotidianos...” – direitos

e) “... é inverter essa lógica.” – validade da Internet

04. No 3º§, ao falar do PL 84, quanto à sua aprovação, está expressa uma ideia de:

a) finalidade.

b) condição.

c) acréscimo.

d) tempo.

e) explicação.

05. O texto afirma que o PL 84 apresenta um conteúdo expressando que, a qualquer momento, alguém pode praticar um crime, um ato de vandalismo, uma atitude ilícita. Tal pressuposto indica:

a) hipótese.

b) certeza.

c) condição.

d) indução.

e) altivez.

TEXTO I:

IBGE divulga Indicadores de Sustentabilidade do Brasil

Nesta quarta-feira, 1 de setembro, o IBGE divulgou os IDS – Indicadores de Desenvolvimento Sustentável referentes ao ano de 2010, que apontaram que, embora o país tenha evoluído nos principais aspectos socioambientais avaliados, ainda há um longo caminho para percorrer rumo ao desenvolvimento sustentável, sobretudo na preservação da biodiversidade. (Planeta Sustentável – 01/09/2010)

 

TEXTO II:

São Paulo é encoberta por camada de poluição, que dificulta inclusive a visão. A qualidade do ar na cidade de São Paulo é a pior dos últimos oito anos. Segundo os dados da CETESB (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental), 37 dias dos últimos sete meses atingiram níveis de poluição acima do padrão aceitável. – Thiago Bernardes/Folhapress. (07/08/2011 – 09h10, do UOL Notícias)

06. A existência do problema da poluição tratado no texto II é comprovada pela expressão do texto I “IBGE divulga Indicadores de Sustentabilidade do Brasil”

a) “IDS – Indicadores de Desenvolvimento Sustentável”

b) “aspectos socioambientais avaliados”

c) “há um longo caminho para percorrer”

d) “desenvolvimento sustentável”

e) “preservação da biodiversidade”

TEXTO I:

IBGE divulga Indicadores de Sustentabilidade do Brasil

Nesta quarta-feira, 1 de setembro, o IBGE divulgou os IDS – Indicadores de Desenvolvimento Sustentável referentes ao ano de 2010, que apontaram que, embora o país tenha evoluído nos principais aspectos socioambientais avaliados, ainda há um longo caminho para percorrer rumo ao desenvolvimento sustentável, sobretudo na preservação da biodiversidade. (Planeta Sustentável – 01/09/2010)

TEXTO II: São Paulo é encoberta por camada de poluição, que dificulta inclusive a visão. A qualidade do ar na cidade de São Paulo é a pior dos últimos oito anos. Segundo os dados da CETESB (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental), 37 dias dos últimos sete meses atingiram níveis de poluição acima do padrão aceitável. – Thiago Bernardes/Folhapress. (07/08/2011 – 09h10, do UOL Notícias)

07. Considerando as informações acerca de sustentabilidade e poluição, marque V para as afirmativas verdadeiras e F para as falsas.

( ) A informação apresentada no texto I utiliza uma linguagem formal.

( ) A informação “São Paulo é encoberta por camada de poluição, que dificulta a visão”, do texto II, contradiz todo o texto I.

( ) O tema tratado no texto I é de caráter atual considerando o texto II.

A sequência está correta em

a) F, F, F

b) V, F, V

c) V, V, V

d) F, V, F

e) V, V, F

Os cabeças-sujas e seu mundinho A pessoa que joga lixo na rua, na calçada ou na praia se revela portadora de uma disfunção mental e social que a inabilita para o sucesso no atual estágio da civilização.

     Que tipo de gente joga lixo na rua, pela janela do carro ou deixa a praia emporcalhada quando sai? Uma das respostas corretas é: um tipo que está se tornando mais raro. Sim. A atual geração de adultos foi criança em um tempo em que jogar papel de bala ou a caixa vazia de biscoitos pela janela do carro quase nunca provocava uma bronca paterna. Foi adolescente quando amassar o maço vazio de cigarros e chutá-lo para longe não despertava na audiência nenhuma reação especial, além de um “vai ser perna de pau assim na China”. Chegou à idade adulta dando como certo que aquelas pessoas de macacão com a sigla do Serviço de Limpeza Urbana estampada nas costas precisam trabalhar e, por isso, vamos contribuir sujando as ruas. Bem, isso mudou. O zeitgeist, o espírito do nosso tempo, pode não impedir, mas, pelo menos, não impele mais ninguém com algum grau de conexão com o atual estágio civilizatório da humanidade a se livrar de detritos em lugares públicos sem que isso tenha um peso, uma consequência. É feio. É um ato que contraria a ideia tão prevalente da sustentabilidade do planeta e da preciosidade que são os mananciais de água limpa, as porções de terra não contaminadas e as golfadas de ar puro.

     E, no entanto, as pessoas ainda sujam, e muito as cidades impunemente.

     Só no mês de janeiro, 3000 toneladas de lixo foram recolhidas das praias cariocas – guimbas de cigarro, palitos de picolé, cocô de cachorro e restos de alimento. Empilhadas, essas evidências de vida pouco inteligente lotariam cinco piscinas olímpicas. Resume o historiador Marco Antônio Villa: “Ao contrário de cidadãos dos países desenvolvidos, o brasileiro só vê como responsabilidade sua a própria casa e não nutre nenhum senso de dever sobre os espaços que compartilha com os outros – um claro sinal de atraso”.

     O flagrante descaso com o bem público tem suas raízes fincadas na história, desde os tempos do Brasil colônia. No período escravocrata, a aristocracia saía a passear sempre com as mãos livres, escoltada por serviçais que não só carregavam seus pertences como limpavam a sujeira que ia atirando às calçadas. Não raro, o rei Dom João VI fazia suas necessidades no meio da rua, hábito também cultivado pelo filho, Pedro I, e ainda hoje presente. Foi com a instauração da República que o Estado assumiu, de forma sistemática, o protagonismo no recolhimento do lixo, mas isso não significou, nem de longe, nenhuma mudança de mentalidade por parte dos brasileiros. Cuidar da sujeira continuou a ser algo visto como aquilo que cabe a terceiros – jamais a si mesmo.

     Existe uma relação direta entre o nível de educação de um povo e a maneira como ele lida com o seu lixo. Não por acaso, o brasileiro está em situação pior que o cidadão do Primeiro Mundo quando se mede a montanha de lixo nas ruas deixada por cada um deles.

     Desde a Antiguidade, as grandes cidades do mundo, que já foram insalubres um dia, só conseguiram deixar essa condição à custa de um intenso processo de urbanização, aliado à mobilização dos cidadãos e a severas punições em forma de multa. “A concepção do bem público como algo valoroso nunca é espontânea, mas, sim, fruto de um forte empenho por parte do Estado e das famílias”, diz o filósofo Roberto Romano. (Veja 09/03/2011, pág. 72 / com adaptações)

 

08. Com relação às ideias expressas no texto, assinale a afirmativa correta:

a) De acordo com o texto, as pessoas têm cuidado com o lixo produzido.

b) As pessoas cuidam das praias, evitam deixá-las sujas.

c) O brasileiro não se preocupa com o espaço público, o que é sinal de atraso.

d) Nos tempos do Brasil colônia, as pessoas eram mais comprometidas com a limpeza pública.

e) Faz parte da educação dos brasileiros o cuidado com a seleção do lixo.

 

A maldição da norma culta

     Impossível calcular o estrago que o termo “norma culta” vem causando nos meios educacionais e, em geral, na cultura brasileira. Enquanto ele não for definitivamente jogado no lixo e incinerado, vai ser difícil examinar as relações entre linguagem e sociedade sob uma ótica serena e bem fundamentada. Por quanto tempo ainda teremos de viver sob a maldição da norma culta?

     Embora alguns linguistas usem esse termo com outros sentidos, a retumbante maioria das pessoas se refere à norma culta como um modelo idealizado de língua “certa”, “bonita” e “elegante”, que elas mesmas não sabem dizer onde, quando nem por quem foi estabelecido, mas que, apesar disso, merece toda a reverência do mundo, como se fosse uma doutrina sagrada, ditada pelo próprio Deus a seus profetas. Numa época em que se questiona tudo, em que se protesta contra toda forma de discriminação, contra qualquer prescrição no que diz respeito às relações sexuais, às crenças religiosas, aos modos de se vestir, de viver, de comer, de criar os filhos etc., em que a palavra diversidade impera, assim como a exigência de que ela seja respeitada e valorizada, é espantoso que só o uso da língua permaneça sujeito a uma regulação restritiva e tacanha. O dogma da infalibilidade papal virou piada, mas quase ninguém zomba dos dogmas gramaticais (mais velhos que a religião cristã). Por que os rótulos de “certo” e “errado” são abandonados, e até ridicularizados, em outras esferas da vida social, mas permanecem vivos e ativos quando o assunto é língua? Por que ninguém se dá conta de que a nebulosa norma culta é um produto humano e, portanto, imperfeito, falho e suscetível de contestação e reformulação?

     Impera na cultura ocidental uma concepção de língua tosca e burra, fixada trezentos anos antes de Cristo. Impregnados dos preconceitos da época, os primeiros gramáticos repudiaram todo e qualquer uso de língua que não fosse, primeiro, escrito (a fala, para eles, era um caos completo) e, não bastasse, escrito por meia dúzia de “grandes autores”, todos mortos. Essa doença torpe se propagou nos últimos dois milênios e meio, a ponto de se tornar invisível para quase todo mundo. É com base nesse critério estúpido – a língua escrita dos “clássicos” – que se fixou, nas diversas nações, o modelo de “língua certa” que, no Brasil, atende pelo nome infeliz de norma culta. No caso brasileiro, a coisa é ainda mais cruel porque, fruto de processo colonial, nosso padrão idiomático se inspira numa língua escrita do outro lado do Atlântico, em outro hemisfério, em meados do século XIX. Por isso, não podemos começar frase com pronome oblíquo, nem usar “ele” como objeto direto (“eu vi ele”), nem dizer “prefiro mais X do que Y”, nem “o filme que eu gosto”, embora tudo isso constitua a gramática de uma língua autônoma, o português brasileiro, com mais de 500 anos de idade e 200 milhões de falantes (a terceira mais falada no Ocidente)! Até quando, meu pai Oxóssi?

(Marcos Bagno, agosto de 2008http://www.portuguesepoesia.com/?page=cronica&id=107 – com adaptações)

 

09. No texto, o autor defende a ideia de que a norma culta:

a) dificulta a aprendizagem da língua portuguesa, principalmente nas instituições de ensino.

b) deve prescrever regras não só para a língua escrita, mas também para a língua falada.

c) precisa ser, no mínimo, repensada, porque impõe regras que não correspondem à realidade linguística de seus usuários.

d) não se aplica ao português brasileiro, uma vez que ela segue os padrões impostos pelos grandes autores portugueses contemporâneos.

e) é mais antiga que a própria religião cristã; existe por volta de 300 anos antes de Cristo.

10. Assinale as afirmativas acerca das ideias do texto.

I. O padrão linguístico vigente em nosso país se baseia na língua escrita dos grandes autores clássicos. 

II. “O filme que gosto” constitui exemplo de frase que contraria as regras prescritas pela norma culta, entretanto ilustra uma construção típica da gramática da língua real, do português brasileiro falado por milhões de pessoas. 

III. A norma culta que impera atualmente prescreve as seguintes regras: “iniciar frase com pronome oblíquo átono” e “prefiro mais X do que Y”. 

IV. Embora a norma culta seja uma convenção humana assentada na língua falada, necessita urgentemente ser reformulada, senão, erradicada. 

Estão corretas apenas as afirmativas:

a) I, II

b) I, III

c) III, IV

d) I, II, IV

e) I, II, III, IV

11. Assinale a alternativa que NÃO expressa uma opinião do autor.

a) “Impera na cultura ocidental uma concepção de língua tosca e burra, fixada trezentos anos antes de Cristo.” (3º§)

b) “É com base nesse critério estúpido – a língua escrita dos ‘clássicos’ – que se fixou, nas diversas nações...” (3º§)

c) “... o modelo de ‘língua certa’ que, no Brasil, atende pelo nome infeliz de norma culta.” (3º§)

d) “... nosso padrão idiomático se inspira numa língua escrita do outro lado do Atlântico, em outro hemisfério...” (3º§)

e) “No caso brasileiro, a coisa é ainda mais cruel porque, fruto de processo colonial...” (3º§)

12.

Pronominais

 

Dê-me um cigarro

Diz a gramática

Do professor e do aluno

E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco

Da Nação Brasileira

Dizem todos os dias

Deixa disso camarada

Me dá um cigarro

(Andrade, Oswald de. Seleção de textos. São Paulo: Nova Cultural, 1988)

12. Pode-se concluir da leitura do poema que o eu lírico:

a) prega uma supervalorização da norma culta em detrimento da norma popular.

b) confirma que o português prescrito pela gramática normativa é mais correto do que o português falado pelo povo.

c) faz uma crítica à rigidez dos padrões gramaticais que não correspondem às situações reais de uso da língua.

d) reconhece que a língua culta escrita reflete o padrão linguístico utilizado pela maior parte dos brasileiros.

e) afirma que a gramática normativa não prescreve qualquer regra relativa à colocação pronominal.

     Quando a gente olha para os oceanos, para os rios e lagos, a Terra parece ter muita água. Quase 3/4 da superfície são cobertos por oceanos, de acordo com o planeta azul visto do espaço. Mas será que é tudo isso?

      Na realidade, a camada de água dos oceanos é fina e, por isso, a quantidade de água é relativamente pequena. Se a Terra fosse do tamanho de uma bola de basquete, toda a água do planeta caberia dentro de uma bolinha de ping pong.

     E mais: dessa bolinha de ping pong, quase tudo, 97,5% é água salgada. E, desse pouquinho que sobra, 70% é agua congelada nos polos e nas geleiras, 30% está debaixo da Terra e apenas 0,3% é água potável, acessível nos lagos e rios. E essa água está mal distribuída. Sobra em algumas regiões e falta em outras. Soma a isso o fato de várias regiões do mundo estarem passando por secas mais prolongadas, como o estado da Califórnia, nos Estados Unidos, que está entrando no quarto ano seguido de seca.

     O ano de 2013 foi o mais seco em 120 anos, diz o climatologista do governo americano, Michael Anderson. Ele prevê para este ano um novo recorde de pouca chuva e altas temperaturas. O nível dos reservatórios baixou. Paul Boyer, da Self-Help Enterprises diz que o lençol de água subterrânea, que deveria ter subido nos primeiros meses do ano, ficou estático. Para ele, a crise ainda vai piorar antes de melhorar.

     A situação também pode piorar no Nordeste brasileiro. Em São Miguel, Rio Grande do Norte, cidade de 23 mil habitantes, ninguém recebe mais conta de água porque ela acabou em dezembro passado, quando o açude secou. Desde que a água encanada acabou, a cidade se movimenta basicamente em torno de um objetivo: conseguir água, vender e comprar água, transportar água, carregar baldes d’água, situação que deve se manter por um bom tempo porque as autoridades locais não estão vendo uma solução em curto prazo.

     A crise também bateu na porta da rica região Sudeste do Brasil. Os dois maiores reservatórios que atendem a Grande São Paulo, Cantareira e Alto Tietê, estão com níveis críticos. O Cantareira, o mais importante deles, entrou no volume morto em maio do ano passado e nunca mais saiu. O presidente da Agência Nacional de Água (ANA), Vicente Andreu Guillo, reconhece que o Brasil tem um nível muito baixo de água reservada e reclama que a legislação ambiental pouco flexível não ajuda.

     Cingapura não cometeu esse erro. Conservando água, uma ilha pequena que era pobre quando pertencia à Malásia, hoje é uma cidade-estado rica e high tech. À época da Independência, 50 anos atrás, a maior parte da água consumida em Cingapura era importada da Malásia, que fica do outro lado. Hoje, a cidade-estado tem reservatórios que satisfazem às suas necessidades.

     Atualmente a escassez de água afeta mais de 40% da população do nosso planeta, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Ela prevê que, até 2025, ou seja, em apenas 10 anos, 1,8 bilhão de pessoas estarão vivendo em países ou regiões com absoluta escassez de água.

(Extraído e adaptado de: http://g1.globo.com/hora1/noticia/2015/08/. Acesso em: 31/08/2015)

 

13. Assinale a opção em que consta o título do texto:

a) Má distribuição e seca prolongada agravam o problema da falta de água.

b) O mapa da seca no Brasil: estudo de caso.

c) O problema das políticas públicas de gestão das águas.

d) Aquecimento global: o ônus das secas prolongadas.

 

14. Aponte a opção em que consta, por ordem de relevância, o eixo temático do texto.

a) Seca, efeitos do aquecimento global, legislação ambiental.

b) Seca, má distribuição da água, legislação ambiental.

c) Legislação ambiental, seca, má distribuição da água.

d) Má distribuição da água, seca, legislação ambiental.

 

15.Observe a imagem e relacione-a à passagem do texto da questão 13 com a qual se identifica argumentativamente:

 

 

 

 

 

 

 

 

a) A crise ainda vai piorar antes de melhorar

b) Atualmente a escassez de água afeta mais de 40% da população do nosso planeta, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

c) As autoridades locais não estão vendo uma solução em curto prazo.

d) A crise também bateu na porta da rica região Sudeste do Brasil.

 

16.Na figura acima, há uma estratégia linguística que contribui para a elaboração do sentido no texto, identifique-a.

a) O emprego das palavras “seca” e “cerca”, quase homófonas, contribui para um efeito em que se neutralizariam, porém o significado de “cerca”, como delimitação da propriedade privada, dos ricos, confere uma orientação argumentativa contrária ao efeito da homofonia.

b) A imagem do chão batido, rachado, com o mandacaru, símbolo da resistência do povo do Nordeste, oferece um contraste relativo ao outro lado da cerca, representando o fato de haver seca no Nordeste, mas não no Sudeste.

c) O fato de utilizar “seca” e “cerca” não oferece, pela imagem, uma leitura adequada.

d) A utilização de um ponto exclamativo ao final da oração funciona de modo a demonstrar a inviabilidade de continuar distribuindo de modo injusto a água no planeta.